Insulina no SUS: entre o anúncio de um avanço e a realidade da escassez
- Gil Fernandes Advogados

- há 1 dia
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No dia 13 de julho de 2026, o Ministério da Saúde divulgou em sua pagina oficial uma notícia que, à primeira leitura, soa como um avanço significativo para o sistema público de saúde. Segundo o comunicado oficial, o SUS iniciou a oferta nacional de insulina glargina, um medicamento mais moderno, de ação prolongada, destinado a crianças e adolescentes de 2 a 18 anos com diabetes tipo 1 e a pessoas com 70 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou 2. A insulina glargina permite, na maioria dos casos, uma única aplicação diária, em vez das até três aplicações exigidas pela insulina NPH, o modelo mais antigo e, até então, amplamente distribuído na rede pública.
O texto oficial é otimista. Fala em transição gradual, em segurança assistencial, em qualidade de vida.
"A previsão é de que todos os estados recebam os insumos até o fim de julho. "
" O cidadão deve procurar a UBS mais próxima com a receita médica..."
A realidade relatada: ausência até do básico
Pacientes de São Paulo relataram falta de insulina NPH — a versão mais antiga, aquela que deveria estar sendo substituída gradualmente pela glargina — em pelo menos sete Unidades Básicas de Saúde das zonas Norte e Sul da capital. Famílias afirmaram que o desabastecimento já dura cerca de um mês. Não se trata da insulina nova, a glargina. Trata-se da insulina que já deveria estar disponível há anos.
A Prefeitura de São Paulo, em nota, informou que houve "faltas pontuais" em três UBSs e que o abastecimento foi mantido por meio de remanejamento entre unidades. Afirmou ainda que a reposição ocorreria a partir da terça-feira, antes do prazo inicialmente previsto.
Há, portanto, uma divergência explícita entre o relato dos pacientes , que falam em desabastecimento de cerca de um mês em ao menos sete unidades, e a versão oficial, que reconhece faltas em apenas três UBSs e as qualifica como pontuais.
Expectativa e realidade: o que separa os dois cenários
O contraste entre as duas notícias não é meramente jornalístico. Ele revela uma tensão estrutural que acompanha o SUS desde sua criação: a distância entre o que é anunciado como política pública e o que efetivamente chega ao paciente.
De um lado, o Ministério da Saúde comunica uma expansão do cuidado, a chegada de uma insulina mais moderna, com menos aplicações diárias, maior estabilidade glicêmica e redução do risco de hipoglicemia. A linguagem é de progresso, de transição segura, de qualidade de vida.
Do outro, pacientes na maior cidade do país não conseguem acessar nem mesmo a insulina que deveria estar sendo substituída. Se a NPH não está disponível, a pergunta que se impõe é evidente: como será operada a transição para a glargina em unidades que não conseguem manter o estoque do medicamento básico?
Não se trata aqui de questionar a iniciativa em si. A incorporação da insulina glargina ao SUS é, do ponto de vista técnico e clínico, um avanço legítimo. O problema está na operacionalização. Um anúncio nacional de ampliação de oferta só tem sentido real se a rede estiver preparada para entregar o que já distribui, antes de prometer o que ainda está por chegar.
Gestão, comunicação e o silêncio sobre as falhas
Há um aspecto que merece reflexão cuidadosa: a forma como a comunicação pública é construída em torno de avanços no SUS.
A notícia do Ministério da Saúde é clara ao descrever benefícios, públicos-alvo, quantidades distribuídas e prazos. É o que se espera de um comunicado oficial: informar, esclarecer, orientar. O que falta, e isso não é uma crítica isolada a uma gestão específica, mas uma observação recorrente em diferentes momentos e governos, é o reconhecimento público das dificuldades operacionais que tornam esses avanços difíceis de materializar na ponta.
Quando um paciente lê que a insulina glargina está disponível nas UBSs e descobre que sua unidade não tem nem a NPH, a confiança no sistema se desgasta. Não porque o avanço não exista, mas porque a comunicação criou uma expectativa que a realidade não consegue sustentar.
A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, minimizou o problema ao classificar as faltas como pontuais. Os relatos dos pacientes sugerem algo mais amplo e mais prolongado. Essa discrepância precisa ser encarada com seriedade. Quando se trata de insulina, um medicamento imprescindivel , qualquer interrupção de estoque, por menor que seja, é grave.
O que isso significa para o paciente
Para quem depende do SUS, a cena se repete com frequência em diferentes contextos: a insulina falta, a cirurgia é adiada, o medicamento de alto custo não chega, a vaga de UTI não aparece. O anúncio oficial diz que o direito existe. A fila diz que ele não chega.
A Constituição Federal, em seu artigo 196, estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado. A Lei nº 8.080/90, que organiza o SUS, reforça os princípios da universalidade, integralidade e equidade. Esses não são princípios abstratos. São compromissos que devem se traduzir em insulina na prateleira da UBS, em atendimento no prazo adequado, em tratamento disponível quando o paciente precisa.
Quando o sistema falha em garantir o básico, o paciente não pode ser deixado à espera de que a gestão se resolva. É nesse ponto que a via judicial se torna não uma alternativa, mas uma necessidade.
A via judicial como garantia de acesso
A judicialização não é a solução ideal para os problemas de gestão do SUS. O caminho desejável seria que o sistema funcionasse de forma a não precisar da intervenção do Judiciário. Mas enquanto a realidade for de desabastecimento, de negativas e de espera, o paciente pode acionar o Poder Judiciário para ter preservada a sua saúde.
A intervenção judicial não substitui a política pública. Mas garante que, enquanto a política não se efetiva, o direito do paciente não fique no papel.
Considerações finais
A oferta da insulina glargina pelo SUS é uma notícia que merece ser recebida com cauteloso otimismo. O avanço é real na intenção, mas sua efetividade dependerá da capacidade de gestão, de logística e de transparência do sistema em todos os níveis, federal, estadual e municipal.
A reportagem do G1, ao mesmo tempo, mostra que o problema não está apenas na incorporação de novas tecnologias, mas na manutenção do que já existe. Não é possível anunciar a chegada de uma insulina mais moderna quando a mais antiga não chega às mãos de quem precisa.
A questão, portanto, não é apenas de comunicação. É de gestão, de prioridade e de respeito ao paciente. E enquanto a distância entre o anúncio e a realidade persistir, é fundamental que os pacientes conheçam seus direitos e saibam que existem caminhos legais para garantí-los.
Fontes:
Aviso Legal: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui a consulta a um profissional. Cada caso possui suas particularidades e deve ser analisado individualmente. Para orientação específica, consulte uma advogada especialista em Direito da Saúde.
Dra. Carla de Santis Gil Fernandes Advogada especialista em direito médico e da saúde OAB/SP 167.661





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